A história não é um simples relato neutro dos acontecimentos do passado. Ela é, antes de tudo, um campo de disputa política. Quem controla a narrativa histórica controla também a forma como uma sociedade compreende a si mesma, legitima suas desigualdades e projeta o seu futuro. No Brasil, a história oficial foi construída como um instrumento de poder, cuidadosamente organizado para justificar privilégios, naturalizar hierarquias raciais e ocultar a violência estrutural que marcou e ainda marca a formação do país.
Desde o período colonial, a população negra foi sistematicamente retirada do lugar de sujeito histórico. Africanos e afrodescendentes aparecem nos livros didáticos quase exclusivamente como força de trabalho escravizada, desprovida de pensamento político, racionalidade econômica ou capacidade organizativa. Essa representação não é fruto de ignorância: ela cumpre uma função ideológica clara. Ao negar protagonismo histórico à população negra, o Estado e as elites brasileiras (a burguesia) constroem a ideia de que a desigualdade racial é natural, inevitável ou resultado de falhas individuais.
No entanto, uma leitura histórica minimamente honesta revela o oposto. A população negra não apenas participou da construção do Brasil, ela foi central nesse processo. Foram homens e mulheres africanos e afrodescendentes que sustentaram a economia colonial, organizaram formas próprias de sociabilidade, resistiram à escravidão e formularam projetos alternativos de vida coletiva. Quilombos, irmandades religiosas, revoltas urbanas e rurais, redes de solidariedade e economias paralelas não foram exceções: foram expressões constantes da resistência negra.
O apagamento como política de Estado
O silenciamento dessas experiências não ocorreu por acaso. Ele foi resultado de uma política deliberada de apagamento histórico. Reconhecer a população negra como agente político significaria admitir que o Brasil foi construído sobre conflito, violência racial e resistência e não sobre harmonia, conciliação ou cordialidade, como sustenta o mito da democracia racial.
A historiografia tradicional brasileira, especialmente aquela consolidada entre o final do século XIX e o início do século XX, cumpriu um papel fundamental nesse processo. Influenciada por teorias raciais europeias, pelo positivismo e pelo projeto de “modernização” das elites, ela produziu uma narrativa nacional branca, europeizada e excludente. Nessa narrativa, o negro aparece como problema social, entrave ao progresso ou herança incômoda de um passado que deveria ser superado.
Esse apagamento histórico foi essencial para a consolidação do racismo antipreto estrutural. Quando a população negra é privada de sua memória, ela também é privada de sua legitimidade política. A ausência da história negra nos currículos escolares, nos livros acadêmicos e no imaginário social não é neutra: ela sustenta a ideia de que a população negra não tem direito à reparação, à terra, ao trabalho digno ou à cidadania plena.
A falsa narrativa da Abolição
Poucos episódios ilustram tão bem essa manipulação histórica quanto a chamada Abolição da Escravidão, em 1888. Tradicionalmente apresentada como um ato benevolente da monarquia brasileira, a assinatura da Lei Áurea costuma ser dissociada das lutas negras que a antecederam. Revoltas, fugas em massa, sabotagens, quilombos e pressões e influências internacionais são minimizadas ou ignoradas.
Mais grave ainda é o que acontece depois da abolição. A narrativa oficial celebra o fim jurídico da escravidão, mas silencia completamente sobre o destino dos quase cinco milhões de pessoas negras libertadas sem qualquer tipo de apoio estatal ou privado. Não houve reforma agrária. Não houve políticas de inclusão no mercado de trabalho. Não houve acesso à educação pública. Não houve indenização. Houve abandono.
Esse abandono não foi acidental. Ele fez parte de um projeto político que visava reorganizar a exploração do trabalho em bases raciais. Ao mesmo tempo em que deixava a população negra à própria sorte, o Estado brasileiro incentivava a imigração europeia, financiava a vinda de trabalhadores brancos e difundia a ideologia do branqueamento como solução para os “problemas nacionais”.
Assim, a abolição, ainda que tenha sido resultado de lutas negras, longe de representar liberdade plena, marcou o início de uma nova forma de exclusão: a marginalização estrutural e extermínio planejado da população negra. A história oficial, ao ocultar esse processo, transforma uma violência histórica em um suposto ponto de partida igualitário o que serve para culpar os próprios negros por sua condição social.
Quilombos, resistência e projetos de sociedade
Outro elemento sistematicamente distorcido pela historiografia tradicional é a experiência quilombola. Quilombos costumam ser apresentados como refúgios isolados, espaços de fuga e sobrevivência precária. Essa visão reduz sua importância política e social.
Na realidade, muitos quilombos foram experiências complexas de organização social, com economia própria, sistemas de defesa, formas de governo e relações diplomáticas. Palmares, por exemplo, não foi um acidente histórico, mas um projeto alternativo de sociedade, que desafiou diretamente o sistema escravista por décadas.
Ao minimizar essas experiências, a história oficial impede que elas sejam reconhecidas como expressões legítimas de pensamento político negro. Mais uma vez, o apagamento cumpre sua função: negar à população negra a capacidade de imaginar e construir outros mundos possíveis.
História, memória e poder no Brasil contemporâneo
Esse processo de invisibilização histórica não pertence apenas ao passado. Ele se manifesta diariamente no presente, quando o racismo antipreto estrutural é tratado como exagero, quando a violência contra a população negra é naturalizada e quando a desigualdade racial é explicada como fruto de mérito individual.
Sem memória histórica, o racismo antipreto aparece como desvio moral. Com memória, ele se revela como estrutura de poder. Por isso, disputar a história é disputar o presente. Recuperar a história negra não é um exercício acadêmico neutro, é um ato político.
Conhecer os fatos históricos que foram silenciados permite compreender por que a população negra ocupa majoritariamente os piores postos de trabalho, é a principal vítima da violência estatal (não apenas violência policial) e enfrenta enormes barreiras de acesso à educação, saúde, moradia e à renda. Nada disso é fruto do acaso.
Por que recuperar a história negra é fundamental
A reconstrução da memória histórica da população negra é condição essencial para qualquer projeto sério de justiça racial/social no Brasil. Sem ela, continuaremos presos a narrativas que culpabilizam indivíduos e absolvem estruturas. Com ela, torna-se possível compreender a profundidade do racismo antipreto e a necessidade de políticas de reparação.
Entender o racismo antipreto no Brasil exige encarar os fatos históricos que foram apagados, distorcidos ou silenciados.
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