O Racismo Antipreto Como Estratégia Histórica de Controle da parte preta Classe Trabalhadora no Brasil

No Brasil, o racismo antipreto nunca foi apenas um fenômeno cultural ou moral. Desde a formação do Estado nacional, ele operou como uma ferramenta central de organização do trabalho, de fragmentação da classe trabalhadora e de manutenção das desigualdades sociais. Compreender o racismo antipreto exige, portanto, analisar sua relação direta com a economia política do país, com o mercado de trabalho físico e digital e com as formas de organização coletiva dos trabalhadores.

Durante mais de três séculos, a escravidão estruturou a economia brasileira. O trabalho escravizado não foi um elemento periférico, mas o eixo central da acumulação de riqueza. A hierarquização racial do trabalho era explícita: pessoas negras eram exploradas como mercadoria, enquanto pessoas brancas ocupavam posições de mando, administração e controle. Essa divisão racial do trabalho não desapareceu com o fim formal da escravidão, ela foi reorganizada.

O pós-abolição e a reinvenção da exploração racial

Com a abolição, em 1888, o Brasil enfrentou um desafio histórico: como reorganizar a exploração do trabalho sem o regime escravista? A resposta das elites foi bem definida e brutal. Em vez de integrar a população negra libertada ao mercado de trabalho formal, o Estado brasileiro optou por excluí-la sistematicamente, criando novas formas de subordinação racial.

O incentivo massivo à imigração europeia, financiado com recursos públicos, não foi apenas uma política econômica. Foi uma política racial. Ao privilegiar trabalhadores brancos europeus, o Estado brasileiro reforçou a ideia de que o trabalho “qualificado”, “disciplinado” e “civilizado” deveria ser branco. A população negra, por sua vez, foi empurrada para a informalidade, para o desemprego e para as ocupações mais precárias.

Esse processo consolidou uma divisão racial dentro da classe trabalhadora. Trabalhadores brancos passaram a ocupar os setores mais estáveis e melhor remunerados, enquanto trabalhadores negros foram sistematicamente excluídos dos direitos trabalhistas que começavam a se estruturar. O racismo antipreto, assim, num determinado momento da história também cumpriu a função econômica de reduzir o custo da força de trabalho e tentativa de enfraquecer a organização coletiva.

Racismo e fragmentação da classe trabalhadora

A fragmentação racial da classe trabalhadora foi e continua sendo uma das principais estratégias das elites para manter seu domínio. Ao hierarquizar trabalhadores com base na raça, o sistema capitalista brasileiro criou disputas internas que desviam o foco do conflito central entre capital e trabalho.

Enquanto trabalhadores disputam migalhas entre si, o capital avança sem resistência unificada. Essa lógica não é exclusiva do Brasil, mas aqui ela assume uma forma particularmente sofisticada, pois é sustentada pelo mito da democracia racial. Ao negar a existência do racismo antipreto, o sistema capitalista impede que ele seja enfrentado como problema estrutural.

O movimento sindical e a questão racial

O movimento sindical brasileiro desempenhou um papel fundamental na conquista de direitos trabalhistas ao longo do século XX. No entanto, é preciso reconhecer criticamente que, em muitos momentos, reproduziu o silenciamento da questão racial.

Ao adotar uma leitura universalizante da classe trabalhadora, parte do sindicalismo ignorou que trabalhadores negros partiam de condições historicamente desiguais. A ideia de que bastaria conquistar direitos gerais para que todos se beneficiassem igualmente revelou-se falsa. Na prática, a exclusão racial continuou operando dentro e fora das estruturas sindicais.

Isso não significa negar a importância das lutas sindicais, mas compreender seus limites históricos. Sem enfrentar o racismo antipreto estrutural, a luta de classes no Brasil permanece incompleta. A ausência de uma pauta racial consistente enfraquece o próprio movimento sindical, pois impede a construção de uma unidade real da classe trabalhadora.

Racismo estrutural e mercado de trabalho contemporâneo

Os efeitos dessa história são visíveis até hoje. A população negra segue majoritária nos empregos informais, nos trabalhos precarizados e nos setores mais vulneráveis da economia. Mesmo quando possui escolaridade semelhante ou superior, enfrenta barreiras adicionais de acesso, promoção e remuneração.

Isso não é resultado de falhas individuais, mas de uma herança estrutural. O mercado de trabalho brasileiro foi moldado para funcionar de forma racialmente hierarquizada. O racismo antipreto não é um resíduo do passado é um elemento ativo do presente.

Quando se discute políticas como cotas raciais no mercado de trabalho, muitos argumentam que elas ferem a meritocracia. Esse argumento ignora deliberadamente o fato de que o mérito nunca foi distribuído em condições iguais. O racismo antipreto sempre foi um fator de desvantagem estrutural para trabalhadores e trabalhadoras negros.

Racismo como tecnologia de poder

Enxergar o racismo antipreto como tecnologia de poder permite compreender por que ele persiste mesmo após avanços legais e institucionais. O racismo antipreto não sobrevive por inércia; ele é funcional. Ele garante força de trabalho barata, reduz o poder de barganha dos trabalhadores e mantém privilégios históricos.

Por isso, combater o racismo antipreto não é uma pauta secundária ou identitária. É uma estratégia central de fortalecimento da parte preta da classe trabalhadora. Não há emancipação possível sem enfrentar as hierarquias raciais que atravessam o mundo do trabalho, dentro e fora dos escaninhos sindicais.

Para onde caminhar?

Superar essa realidade exige mais do que boa vontade. Exige formação política, leitura histórica e disposição para enfrentar narrativas confortáveis. Exige reconhecer que o racismo antipreto foi e continua sendo um dos pilares da exploração do trabalho no Brasil.

Sem compreender essa história, qualquer projeto de justiça social estará condenado a repetir as mesmas políticas de exclusão e de extermínio.

Para aprofundar essa compreensão com base em fatos históricos concretos, acesse gratuitamente o e-book “5 Fatos Históricos Fundamentais para Compreender o Racismo Antipreto no Brasil”:

🔗 https://eduardorosadigital.com.br/e-book-5-fatos-historicos-fundamentais-para-compreender-o-racismo-antipreto-no-brasil

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress